quinta-feira, 24 de julho de 2008

LEITURA E ESCRITA: MATEMÁTICA E LÍNGUA MATERNA

O trechos abaixo foram extraídos de uma proposta de pesquisa sobre as relações entre a línguagem verbal e a matemática.

MATEMÁTICA E LÍNGUA MATERNA: PROPOSTAS PARA UMA INTERAÇÃO POSITIVA (clique no título acima para ver o texto na íntegra)


"...é possível afirmar que linguagem e matemática são correlatas: “ambas se tornam possíveis pela mesma característica do cérebro humano” (DEVLIN, 2004, p.37); (...) Sob esse aspecto, Matemática e Língua Materna possuem a mesma raiz, a mesma origem; “a capacidade matemática é nada mais do que a capacidade lingüística usada de maneira ligeiramente diferente (DEVLIN, 2004, p.37).




Entretanto, apesar de comungarem da mesma fonte, de compartilharem a mesma raiz,
Matemática e Língua Materna, enquanto disciplinas acadêmicas, acabam por tomar direções
opostas, pois desde o início do processo escolar percebe-se, em nível de senso comum, uma ênfase nos aspectos que separam as duas, em detrimento, sobretudo, da Matemática – que aparece quase como a vilã da história.


No conjunto das disciplinas escolares, a imagem social da Matemática é a pior possível.
Segundo Ernest (2000, p. 9, minha tradução), “em comparação com a desgraça de ser
analfabeto, o ‘anumerismo’ é exibido em muitos casos com orgulho entre as pessoas cultas dos países anglo-saxões ocidentais” – o que podemos dizer que acontece também no Brasil.


Mas por que a Matemática, substrato de tantas ciências, tornou-se um elemento discriminatório? É no mínimo curioso que essa disciplina dotada de características universais,
aceita como instrumento de comunicação da pátria humana, seja vista, como um conhecimento essencialmente técnico, destinado à compreensão de poucos. “Esta disciplina primordialmente voltada para a compreensão tornou-se indecifrável”. (VERGANI, 1993, p.11). Trata-se de um fenômeno importante, que amplia a dicotomia Matemática x Língua Materna no ambiente escolar, já que não se ouve falar de uma ‘fobia às letras’ ou a Língua Materna.


...a Matemática e a Língua Materna representam elementos fundamentais e complementares, que constituem condição de possibilidade do conhecimento, em qualquer setor, mas que não podem ser plenamente compreendidos quando considerados de maneira isolada. (MACHADO, 1998, p.83)


Aprofundando um pouco mais, deparamo-nos com a leitura enquanto meio necessário em
situações de aprendizagem, capaz de gerar novas compreensões e assim, conhecimento. Em
nível de senso comum, paira a concepção de que, se o aluno tivesse mais fluência na leitura na Língua Materna, conseqüentemente seria melhor leitor nas aulas de matemática, facilitando a compreensão e, portanto, a aprendizagem.
Contudo, o que ocorre é uma interação muito mais profunda, centrada na interdependência
entre Matemática e Língua Materna e não de preponderância dessa sobre aquela. Assim, de
acordo com SMOLE e DINIZ (2001, p. 69) “não basta atribuir as dificuldades dos alunos em ler textos matemáticos à sua pouca habilidade em ler nas aulas de língua materna”, é necessário assumir a formação dos alunos como leitores fluentes nas diversas linguagens, pois grande parte das informações necessárias para a vivência em sociedade são transmitidas através da leitura.


Sob esse aspecto, a leitura é um fator ainda mais crucial na aprendizagem matemática,
devendo ser trabalhada nesse sentido, para que nossos alunos possam aprender a usar
progressivamente a leitura como meio de buscar informações, aprender e, posteriormente,
exprimir suas opiniões. Fica então explícita a necessidade do trabalho com atividades que
valorizem a leitura nas aulas de matemática acrescentando que a leitura dos textos
matemáticos possui algumas peculiaridades que precisam ser consideradas...


- o texto matemático é uma composição de elementos da Língua Materna e da Matemática,
referindo-se, portanto a elementos reais – ou relacionados com objetos reais – e a entes
puramente abstratos (DEVLIN, 2004);
- a linguagem matemática, por vezes apresenta uma organização da escrita diferente da
utilizada nos textos convencionais, exigindo um processo particular de leitura (DINIZ;
SMOLE, 2001);


- o texto matemático, escrito na Língua Materna, traz alguns termos pouco utilizados na fala
coloquial – por exemplo: efetue, analise, decomponha – e por vezes retrata situações
artificiais que não fariam pouco sentido se deslocadas para a realidade (SKOVSMOSE,
2000).


Devido a tantas especificidades, vem a necessidade de que os alunos aprendam a ler
matemática e a ler para aprender matemática
, pois para interpretar um texto matemático, o leitor precisa familiarizar-se com a linguagem e os símbolos próprios desse componente curricular, encontrando sentido no que lê, compreendendo o significado das formas escritas que são inerentes ao texto matemático, percebendo como ele se articula e expressa conhecimentos (DINIZ; SMOLE, 2001, p. 71). Para tanto, é imprescindível reduzir a distância entre Matemática e Língua Materna, na escola. Um caminho, a ser iniciado nas aulas de matemática, seria a discussão de conceitos e procedimentos, a valorização da leitura e/ou a utilização de textos adequados aos objetivos a serem alcançados.
Nessa aproximação, é importante conhecer quais seriam as dimensões em que Matemática e Língua Materna apresentam uma relação mais próxima. No âmbito da comunicação é possívelafirmar que a Matemática se utiliza da Língua Materna, extraindo o que lhe falta: a oralidade.


Infelizmente, a aula de matemática ainda explora pouco sua veia comunicativa, restringindo-se à fala do professor entremeada – em raros momentos – pela dos alunos; quanto à utilização pedagógica, a escrita ainda é moeda forte, privilegiada nas atividades diárias e exclusiva enquanto código utilizado nas avaliações. A sub-utilização da oralidade, nas aulas de Matemática, só faz reforçar o formalismo, conduzindo a “um degrau, de difícil transposição, na passagem do pensamento à escrita” (MACHADO, 1998, p.108).

Cris

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