domingo, 15 de fevereiro de 2009

PARA REFLETIR

O texto é antiguinho, mas nossas dúvidas sobre a tal progressao continuada continuam atuais.

Bomba, repetência, a escola que funcionava


Folha de São Paulo, 05/12/2000 - São Paulo SP

MARILENE FELINTO

Pensando bem, lembrando bem, se eu fosse aluna de uma escola em que vigorasse a lei de ninguém levar bomba, ninguém repetir de ano, eu não faria nada, não estudaria coisa nenhuma. Lembro bem dos meus tempos de aluna de uma escola estadual em São Paulo. Naquele tempo, nos anos 70, a escola pública estava apenas começando a degringolar.
Também inventavam coisas naquela época para "modernizar" e "melhorar" a educação, como um tal de "ensino pluricurricular", um palavrão que não deu em nada. Do mesmo modo como hoje inventaram o tal do "sistema de progressão continuada", que, trocando em miúdos, não passa de aprovação automática de uma série para outra, contanto que o aluno tenha assistido a 75% das aulas.
Se fosse comigo, não estudaria. Ia preferir, conscientemente, pegar "aulas de reforço" em uma ou outra matéria cujo professor me interessasse, ou por quem eu estivesse encantada, apaixonada, como costuma acontecer com estudantes o tempo todo.
Uma das piores coisas da escola pública, com suas classes de 40 alunos, era não poder receber atenção mais demorada dos professores. Adolescente se sente sempre meio só, incompreendido, confuso, gosta de conversa e consideração de gente que ele admire. Então, para receber mais atenção do professor X ou Y, seria melhor não estudar nada, enfrentar umas aulas de reforço. Todo aluno sabe que "aula de reforço" é mera formalidade e não reforça lá muita coisa. Pelo menos nas escolas do governo são panos quentes jogados sobre o caos.
Hoje, 30 anos depois, a educação pública está inacreditavelmente pior do que era, e os pedagogos são capazes de considerar a aprovação automática um fator de progresso ou melhoria. Em São Paulo, 6 milhões de estudantes solitários são aprovados automaticamente todo ano, numa tentativa de tapar o sol com a peneira, de diminuir os vergonhosos índices de evasão escolar e analfabetismo. Resultado: tem menino de 7ª série escrevendo "saudade" com "l", levando por água abaixo a singularidade poética da língua-pátria.
O fato é que nossa educação pública parece caminhar numa trajetória de equívocos sucessivos há décadas. Equivocado é o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, ao achar que os alunos vão mal porque o ensino está chato e não consegue competir com a Internet. Equivocada é a secretária de Estado da Educação de São Paulo, Rose Neubauer, ao varrer a poeira para debaixo da cama aprovando alunos em progressão continuada.
É evidente que o que falta é professor bem formado e bem pago, escola bem equipada, segura, atraente. Internet é coisa para ministro ver. Não mais importante do que uma biblioteca ou um professor que escolha bons livros para o menino ler. Boa literatura, e não essas porcarias facilitadas que os professores de hoje (que também não sabem ler) dão como indicação de leitura.
Também me lembro que a única coisa que me movia para diante na escola era um certo espírito de competição, uma vontade de mostrar para mim mesma e para o mundo que eu podia tirar notas altas, superar as adversidades e os outros alunos. As provas, os exames de fim de ano, eram um desafio excitante. Naquele tempo, estudar ainda era igual a aprender e vencer na vida. Como conceber a escola sem isso? A bomba me parece melhor, portanto, do que a escola facilitada de hoje: uma instituição que só serve para perpetuar as desigualdades específicas das classes.


E-mail - mfelinto@...

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