domingo, 15 de fevereiro de 2009

PARA REFLETIR

O texto é antiguinho, mas nossas dúvidas sobre a tal progressao continuada continuam atuais.

Bomba, repetência, a escola que funcionava


Folha de São Paulo, 05/12/2000 - São Paulo SP

MARILENE FELINTO

Pensando bem, lembrando bem, se eu fosse aluna de uma escola em que vigorasse a lei de ninguém levar bomba, ninguém repetir de ano, eu não faria nada, não estudaria coisa nenhuma. Lembro bem dos meus tempos de aluna de uma escola estadual em São Paulo. Naquele tempo, nos anos 70, a escola pública estava apenas começando a degringolar.
Também inventavam coisas naquela época para "modernizar" e "melhorar" a educação, como um tal de "ensino pluricurricular", um palavrão que não deu em nada. Do mesmo modo como hoje inventaram o tal do "sistema de progressão continuada", que, trocando em miúdos, não passa de aprovação automática de uma série para outra, contanto que o aluno tenha assistido a 75% das aulas.
Se fosse comigo, não estudaria. Ia preferir, conscientemente, pegar "aulas de reforço" em uma ou outra matéria cujo professor me interessasse, ou por quem eu estivesse encantada, apaixonada, como costuma acontecer com estudantes o tempo todo.
Uma das piores coisas da escola pública, com suas classes de 40 alunos, era não poder receber atenção mais demorada dos professores. Adolescente se sente sempre meio só, incompreendido, confuso, gosta de conversa e consideração de gente que ele admire. Então, para receber mais atenção do professor X ou Y, seria melhor não estudar nada, enfrentar umas aulas de reforço. Todo aluno sabe que "aula de reforço" é mera formalidade e não reforça lá muita coisa. Pelo menos nas escolas do governo são panos quentes jogados sobre o caos.
Hoje, 30 anos depois, a educação pública está inacreditavelmente pior do que era, e os pedagogos são capazes de considerar a aprovação automática um fator de progresso ou melhoria. Em São Paulo, 6 milhões de estudantes solitários são aprovados automaticamente todo ano, numa tentativa de tapar o sol com a peneira, de diminuir os vergonhosos índices de evasão escolar e analfabetismo. Resultado: tem menino de 7ª série escrevendo "saudade" com "l", levando por água abaixo a singularidade poética da língua-pátria.
O fato é que nossa educação pública parece caminhar numa trajetória de equívocos sucessivos há décadas. Equivocado é o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, ao achar que os alunos vão mal porque o ensino está chato e não consegue competir com a Internet. Equivocada é a secretária de Estado da Educação de São Paulo, Rose Neubauer, ao varrer a poeira para debaixo da cama aprovando alunos em progressão continuada.
É evidente que o que falta é professor bem formado e bem pago, escola bem equipada, segura, atraente. Internet é coisa para ministro ver. Não mais importante do que uma biblioteca ou um professor que escolha bons livros para o menino ler. Boa literatura, e não essas porcarias facilitadas que os professores de hoje (que também não sabem ler) dão como indicação de leitura.
Também me lembro que a única coisa que me movia para diante na escola era um certo espírito de competição, uma vontade de mostrar para mim mesma e para o mundo que eu podia tirar notas altas, superar as adversidades e os outros alunos. As provas, os exames de fim de ano, eram um desafio excitante. Naquele tempo, estudar ainda era igual a aprender e vencer na vida. Como conceber a escola sem isso? A bomba me parece melhor, portanto, do que a escola facilitada de hoje: uma instituição que só serve para perpetuar as desigualdades específicas das classes.


E-mail - mfelinto@...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Notícias

Bolsas em universidade para professor de escola pública. Clique aqui para ler

Em 2009, estudantes terão Olimpíada Brasileira das Ciências. Clique aqui para ler

Ensino fundamental dobra inclusão de aluno com deficiência. Clique aqui para ler

SP: Rede estadual vai reduzir o ensino médio noturno. Clique aqui para ler

Ministro da educação diz que meta é atingir nota 6 em índice de avaliação. Clique aqui para ler

Estudante de 10 anos narra em blog da TV Cultura experiências sobre Mônaco. Clique aqui para ler

SP: governo lança programação cultural . Clique aqui para ler

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

É possível desejar ‘Feliz’ dia de Professor?






Escrito por Rodrigo Furtado
15-Out-2008







Há muito ouvimos essa estória de "produtividade" na universidade. Tudo bem, ela tem o seu lado necessário, institucional, funcional. A questão, penso, é a necessidade de relativizarmos esse conceito no âmbito de cada IES (Instituição de Ensino Superior), naquilo que lhe é específico. Em algumas IES’s, a produtividade vem por "via prussiana", por decreto, como critério de classificação e seleção entre os pares, entre os projetos de departamento, no âmbito das agências de fomento à pesquisa etc., sob a máscara de meritocracia (mas ao estilo do self-made man, do individualismo exacerbado). A própria idéia de currículo acadêmico sustenta essa "corrida" por acúmulo de títulos, congressos, "artigos" etc. É a famosa frase: "nossa, tô com a corda no pescoço. Meu(inha) orientador(a) me pressiona, tenho que publicar, tenho que ir pra tal congresso etc." Ou: "tenho que dar um upgrade no meu Currículo Lattes. Estou ‘dando’ aula aqui, na verdade, é pra fazer meu Lattes".



Lembro-me de uma frase dita em sala de aula por um ex-orientador e professor do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia, em Araraquara, que concluía seu doutorado em 1999, na USP, sob orientação de Gabriel Cohn: "dou aula desde 1976, quando isso aqui se transformou em UNESP. A minha geração tinha a idéia de que um mestrado e um doutorado eram a mesma face de uma realidade: eram a obra de uma vida inteira. Se olharmos Fernando Novais, seu tema principal levou treze anos. Outros, levaram 5, 7 anos de trabalho árduo, seqüencial. Não quero treze anos, mas hoje, para concluir meu doutorado, sinceramente, estou com dificuldades, pois os valores de minha geração são outros, uma vez que queriam que o finalizasse em 5 semestres. Minha cabeça não abstrai essa idéia. Olhe para vocês: muitos aqui agora estão matriculados em 7, 8, disciplinas, alguns ‘loucos’ em até dez disciplinas em um período. Na minha graduação fazíamos três, quatro disciplinas ao ano. Graduação era para se aprofundar na matéria-prima conceitual, nos clássicos".



Octavio Ianni, este "monstro sagrado" do pensamento social latino-americano (que nos deixou há pouco), também em Araraquara, em 1997 ou 1998, numa palestra disse: "Eleja duas, três, disciplinas que você precisa e faça delas o tom de sua formação. Mergulhe nelas, estude-as, pois vocês estão matriculados em várias matérias, hoje. Eu entendo a necessidade disso, mas entendo também que vocês terão que cumpri-las para obter os créditos, para formalizarem sua graduação e se formarem. Pois será impossível se entregar a todas como é necessário. Então, elejam 2, 3, e se dediquem de corpo, alma e mente, pois daí você tirará aquela matéria-prima que lhe acompanhará para o resto de sua vida, e de sua profissão". Sem comentários! Doída, mas madura essa observação.



Ora, é muito simples a conta: quanto mais rápido você terminar os níveis de pós-graduação, e se tiver bolsa isso passa a ser um imperativo categórico, melhor para você. Afinal terá um "título", melhores salários (?), melhor cargo... E nós (a instituições, os "patrões" acadêmicos etc.) vamos melhorar nossos indicadores de produtividade. Falácia! Quantos colegas e conhecidos estão "escondendo" seus títulos de doutorado para poderem ser contratados por aí, e muitas vezes apenas para dar aulas. Muitos outros são dispensados justamente por serem detentores desses títulos.



Cada vez mais as pesquisas exigem os chamados estudos de caso. Quantos conseguem, hoje, com facilidade propor uma pesquisa teórico-conceitual sem ser em algum momento questionado sobre o "pragmatismo" que a "ciência" tem que ter? Lembro-me de um amigo, hoje professor na Universidade Mackenzie, em São Paulo, que dizia que a Filosofia - que fique bem claro - ainda está sendo o centro de resistência às pesquisas meramente de estudo de caso. Mas que esse "pragmatismo" já estava invadindo os programas de mestrado e doutorado. "Não sei até quando a Filosofia vai resistir!", vaticinou. Sinceramente, pode até não concordar comigo, mas chique é ler Platão. E para bom entendedor, pingo é letra.



Já em outras instituições, numa outra realidade (bem positiva), essa produtividade é vivenciada pela motivação do trabalho, do ambiente, da idéia de pesquisar e no tempo adequado para realizar os estudos. Aqui, sim, é diferente! E convenhamos: é cada vez mais difícil encontrar algo parecido por aí.



Nas IES’s particulares sabemos o que a grande maioria pensa: universidade, ou faculdade, é para "dar aulas". E somos extremamente mal remunerados pelas aulas, apenas pelas aulas (aqui não entram os projetos de extensão, a pesquisa, a assessoria etc.): somos horistas na maioria das instituições espalhadas por aí. Logo, o cálculo capitalista não faz esforço para aparecer: ganha mais - e isso não quer dizer que ainda assim se ganharia bem - quem conseguir mais aulas num único lugar. Outro fato raro, pois os "pacotes de aulas" são pequenos. Portanto, muitos de nós temos que nos transformar em "nômades acadêmicos". Maior número de aulas, num maior número de instituições, se possível.



Sinceramente, nunca imaginei, à época de meu colegial, que um dia seria normal um aluno conviver com a idéia de casa do professor, essas que as faculdades, universidades, escolas de Ensino Fundamental e Ensino Médio (pré-vestibular) mantêm por aí. Passaram a ser necessárias dentro, amiúde, da equação capitalista que assola a educação. Aliás, educação é "mais um produto", ou se preferir, um serviço oferecido ao mercado.



Então como teremos o tempo necessário (isso é público e notório para quem freqüentou com alguma responsabilidade um curso superior) para ler, "futricar" nos artigos, textos, vídeos, seja online ou numa biblioteca, num arquivo, num sebo? Resenhar, fichar, refletir, escrever, reler, preparar, planejar e comunicar uma aula, como? Será que os "empresários/executivos" da educação algum dia freqüentaram nem que seja um curso em docência para perceberem o tanto que é sério, difícil, complexo e, no mínimo, trabalhoso fazer um planejamento? Que essa preparação é uma necessidade de o professor assumir uma postura séria e crítica de transformação da realidade, portanto, que um planejamento, seja ele qual for, é político-pedagógico? Isso significa dizer que a atuação de um professor não é isenta de tomada de decisões, não é a-histórica e desprovida de alguma ideologia. Que não é simplesmente uma "mastigação" das idéias de outros autores que serão lidos(?) e debatidos(?).



Penso que nunca freqüentaram qualquer discussão sobre isso, afinal, o cálculo mercantil reduziu tudo, e a própria esfera do produzir conhecimento, a mais uma variável econômica. Falamos hoje em capital intelectual, não é mesmo? Aquele, dentre os vários tipos de capital, que mais agrega valor. E qual o final dessa equação? Os salários, ou seja, aquele elemento necessário para garantir alguma sobrevivência (atenção, não falo de vivência, mas de uma sobrevida! Qualquer dúvida é só visitar a obra de Max Weber) nas regras inexoráveis do capitalismo. Não tenho escolha: não posso vislumbrar o Ser, pois estou condenado ao Ter, mesmo que esse valor seja apenas um valor, um ideal, uma propaganda com forte apelo ideológico, e não uma realidade.



Dia do Professor! E essa categoria profissional na base, no ambiente "povão" dos professores, ou seja, nas escolas públicas, escolas pequenas particulares e no enxame de IES’s que brotam por aí, será que essa categoria tem, produz ou quer produzir alguma consciência de si e para si? Isso não importa, pois mesmo chorando os nossos insucessos "profissionais" temos que produzir, já que "fila anda". Não é assim que se diz? Ontem, hoje, amanhã, teremos que produzir, mas o problema é que muitos não sabem que a produção vista pelas pessoas na segunda, na terça, na quarta, começou bem antes: na preparação, nas horas de correção das montanhas de trabalhos e avaliações, nos "agradabilíssimos" diários, ou seja, naquilo que se assemelha a um fordismo acadêmico ou escolar. A própria ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (http://www.andes.org.br/) - vem travando um trabalho de luta e organização da categoria acerca da temática do produtivismo acadêmico, da produção do conhecimento e da alienação do trabalho docente. A alienação é nossa companheira e nos confronta vis-à-vis!



O único feriado que talvez mereça alguma atenção neste mês de outubro seja o de Nossa Senhora Aparecida. É o único que reconheço - a despeito dos críticos religiosos e das teorias daqui ou dali e sob o prisma da organicidade da cultura brasileira e dos paradigmas da antropologia - como legítimo.



Quando o Dia do Professor foi criado, em 1963 (às vésperas do golpe militar e da ditadura que se iniciaria neste país), por determinação do Decreto Federal 52.682/63, foi assim definido: "para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias". Na verdade, não há discussão nenhuma, crítica e reflexão alguma. Passa-se o "dia" e sequer alguma troca de idéia acontece. Esse dia pode ter nome, a intenção pode até ser "boa", mas qualquer um sabe que é apenas mais um dia para configurar no calendário de feriados. Sua utilidade é apenas mais um dia sem colocar os pés na escola provavelmente.



O resto é o resto... Professor: dia feliz?



Rodrigo Furtado Costa, 32, é cientista social pela UNESP/Araraquara, especialista em Gestão e Exercício da Docência no Ensino Superior, professor da UEMG/Frutal e Faculdade Frutal.



E-mail: prof_rodrigo_sociologia@yahoo.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/2449/9/



sábado, 11 de outubro de 2008

Para biólogos e simpatizantes!!

Vejam o blog http://blogdoplaneta.com/colunaepoca/ ,apresenta reportagens e vídeos muito interessantes sobre meio ambiente.É de um pessoal do FUNDESPA ligado ao Instituto Oceanografico da USP que realiza um projeto de divulgação dos conhecimentos marinhos em escolas.Foram na EMEFM Derville Allegretti, e fizeram um trabalho de muito legal.Vale a pena repassar esse blog.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

“O EU SE REALIZA NA RELAÇÃO COM O TU” - Martin Buber



Eu não sou você
Você não é eu


Eu não sou você

Você não é eu

Mas sei muito de mim

Vivendo com você

E você, sabe muito de você vivendo comigo?

Eu não sou você.

Você não é eu.

Mas encontrei comigo e me vi

Enquanto olhava pra você.

Na sua, minha, insegurança

Na sua, minha, desconfiança

Na sua, minha competição

Na sua, minha, birra infantil

Na sua, minha, omissão

Na sua, minha, firmeza

Na sua, minha, impaciência

Na sua, minha, prepotência

Na sua, minha, fragilidade doce

Na sua, minha, mudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto

olhava para mim?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas foi vivendo minha solidão

que conversei com você

E você conversou comigo na sua solidão

ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sou mais eu, quando consigo

lhe ver, porque você me reflete

No que eu ainda sou

No que quero vir a ser...

Eu não sou você
Você não é eu

Mas somos um grupo, enquanto

somos capazes de, diferenciadamente,

eu ser eu, vivendo com você e

Você ser você, vivendo comigo.


Madalena Freire
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"Eu transformo-me através dos meus contactos com o TU; no momento em que me torno EU, digo TU. A verdadeira vivência é o encontro."

Impossível ler o poema de Madalena Freire e não pensar em Martin Buber - filósofo, escritor e pedagogo judeu que em suas publicações filosóficas, deu ênfase a idéia de que não há existência sem comunicação e diálogo e que objetos não existem sem a interação. As palavras-princípio,Eu-Tu(relação), Eu-Isso(experiência), demonstram as duas dimensões da filosofia do diálogo que, segundo Buber,abarcam a existência. Confiram mais sobre suas idéias no Blog Blog pensamento de Maritin Buber.

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LER DEVIA SER PROIBIDO



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FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É?

Você acredita que apenas "filho de leitor, leitor é "? Eu acreditava, porém a entrevista com a pedagoga, especialista em Educação Infantil Cleidna Landivar e escritora fez-me refletir sob um outro ângulo e pensar na importãncia das narrativas orais como pontes para as narrativas escritas. A entrevista está no site do jornal Tribuna do planalto.
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Cris

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

recorte e cole



CRIS

A FELICIDADE É UMA META...




DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: 'Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.'


Frei Beto



O texto aí em cima é uma dica da Filó que lê, se sensibiliza com o que lê e compartilha. Uma das funções deste BLOG, penso eu, é COM- PARTILHAR. Valeu Filó!

Dia desses pretendo postar fotos e comentários dos trabalhos que estão, enfim, sendo expostos na escola. Vou começar com os da professora, Flor - que alías não podia ter um nome mais adequado, ela é um jardim delas. Profesora de uma primeira série muito famosa na escola - porque Flor gosta de dar visibilidade e amplificar voz dos pequenos - ela hoje me deu uma aula de reescrita. Valeu Flor!

Há muitas outras coisas que gostaria que estivessem registradas aqui, como por exemplo o trabalho do João na 7ª D, o trabalho da Silvia de inglês, a pesquisa que o Roberto fez em algumas séries sobre o posicionamento político-ideológico de algumas séries, o tal diário de bordo de um quinta série - delicioso - que a Filó apresentou na última reunião pedagógica , o projeto jornal mural que lenta e lutamente estamos articulando e tantas outras coisas que não sei e que gostaria de saber se...
Ah! quero também registrar que adoro quando a Célia enche -sabiamente - nossos ouvidos de canções na escola e agradecer aos responsáveis por viabilizar os murais, que - excetuando-se as correntes - estão em sintonia com nossos diálogos.

Um grande abraço solidário a todas (os)!

Cris


PS: Patrícia, não esqueci do bullying Blogs nos alunos, não. É que estou enrrolada nos jornais murais. Continue insistindo - eu preciso que me lembrem...ando comendo muito açúcar branco! -

MUSEU DE LÍNGUA PORTUGUESA -
Programação de outubro e novembro - Cursos, oficinas e worshops sobre Machado de Assis, gravação de cd para poetas e autores, mitos brasileiros em cordel, histórias de pescador e programação comemorativa para o dia das crianças.

Para acessar a programação tem que salvar a imagem ao lado e visualisá-la num editor de imagem - não tive tempo de copiá-la e também não achei a programação na internet , essa aí me veio por email. Se virem!

CRIS